Transcrição da exposição do romance 'A LETRA ESCARLATE' do dia 7 de abril de 2012 no MIS Campinas
Nota do Blog: No dia 7 de Abril de 2012 houve a exposição do romance " A Letra Esccarlate" de Roland Joffé no MIS Campinas. O texto a seguir é a descrição do curador da exposição, Ricardo Pereira.
A Letra Escarlate
A Letra Escarlate
A trama de ‘A Letra Escarlate’ tem seu desenvolvimento situado no século XVII, período colonial norte-americano em que a nação ainda era conhecida por Nova Inglaterra. Nesse período, muitas colônias fixavam seus domínios com propósitos claramente religiosos, a exemplo de Massachussets, cuja organização se estabelecia de acordo com o regime teocrático puritano. (Comentar embate entre Puritanos e Quacres)
Deslocado, mas sem marcas textuais que o localizem precisamente no tempo, encontramos o narrador. A narrativa é construída a partir de suas reflexões sobre sua vida burocrática como funcionário de uma alfândega – instituição administrativa que dá nome à introdução do romance, O Edifício da Alfândega, e seus diálogos com os manuscritos de seu predecessor na administração daquele estabelecimento – junto dos quais encontrou a letra A bordada em um vermelho brilhante que dá nome a obra. Ler página 39 do romance.
Nesse momento, do narrador e do romance, nos encontramos em outro momento histórico. A esse tempo já não existe mais a Nova Inglaterra, mas sim os EUA, nação politicamente independente desde 4 de julho de 1776. Da mesma forma as colônias deram lugar a Estados também politicamente organizados, alguns com Constituição própria, como é o caso de Massachusetts (1780).
Essa preocupação em abrir o romance apresentando uma distância temporal entre o momento em que ele é escrito e o momento em que se passa a história é fundamental para compreender o nosso autor. Lembremos que Hawthorne, nascido na mesma Salém do romance, teve sua formação baseada nos princípios daquela cultura que ele se propõe a descrever em seu romance, o que faz dele um autor puritano. Ainda que crítico daquele modelo, essa tradição cultural encontra-se bordada em suas vestes, tal qual a letra A no peito de Hester Prynne.
A cidade de Salem é um ponto de referência não apenas na ficha bibliográfica de Nathaniel Hawthorne, mas também na sua ficha literária. A vida do escritor e quase toda a sua obra de ficção ficaram impregnadas da atmosfera característica daquela província arrepiada noutros tempos pelos preconceitos e superstições que haveriam de torná-la uma espécie de fortaleza do calvinismo colonial. O homem arisco e desconfiado que viria a dar à literatura universal obras da categoria de A Letra Escarlate não se livraria nunca, vivendo ou escrevendo, dos fantasmas terríveis de um mundo à mercê da intolerância que em pleno século XX, cem anos depois da morte de Hawthorne, iriam ressuscitar numa obra-prima da dramaturgia moderna: As Bruxas de Salem, de Arthur Miller.
Quando ele nasceu – foi no dia 4 de julho de 1804 – a cidade já não era a mesma de seus antepassados: havia perdido a condição antiga de baluarte da ortodoxia puritana, tornara-se um centro de comércio marítimo intenso com a Índia Ocidental e a China, começava a apagar lentamente os rastros do passado sombrio. Mas Hawthorne, ele é que não liquidara os resíduos do legado espiritual de seus ancestrais. Era ele, afinal, o descendente de um Major William Hawthorne, homem grave e intolerante “de uma obscura e melancólica grandeza”, como acentuava o próprio romancista de A Casa de Sete Torres; um homem severo, que um dia “barbado, de casaco de marta e chapéu alto”, com uma Bíblia na mão e uma espada na outra, instalara à família à beira da baía de Massachussetts e se tornara inflexível perseguidor dos Quacres.
Descendente ainda do coronel e juiz John Hawthorne, igualmente intolerante e feroz, inflexível em suas convicções, implacável em sua maneira de entender as convicções alheias, “tão fanático no martírio das feiticeiras que com razão se pode dizer que o sangue delas o deixou manchado” – ressaltou o neto, Nathaniel, assustado talvez, a vida toda, com aquela praga rogada, segundo a tradição, por uma das feiticeiras condenadas. Rogada não só ao juiz, mas a seus filhos e aos filhos de seus filhos – uma tremenda maldição que Hawthorne não esqueceria nunca, menino, rapaz ou homem feito. Um ensaísta americano, Austin Warren, chamou a atenção para isso: “O mais íntimo espírito de Hawthorne, o espírito que o levou a escrever suas mais características histórias e novelas, era o espírito ancestral, sobre o qual havia sido lançado a praga, o espírito amaldiçoado; seu mundo imaginário era um mundo de feitiçarias, dos Quacres, dos puritanos – o Século XVII da Nova Inglaterra, em que seus ascendentes haviam desempenhado papéis tão notáveis”.
Hawthorne fez da literatura um caminho particular de salvação e de expurgo do que ele chamava de maus traços puritânicos presentes em seus antepassados. Crítico silencioso, ou pouco ruidoso, do puritanismo e de sua inserção nele, reinventou o puritanismo, mas o receio do inferno não lhe permitiu abandoná-lo.
Será possível a um escritor – tão dado ao ócio necessário à inventividade e criatividade, que vive da e para a reflexão – exercitar a ética profissional puritana de quem trabalha para a glória de Deus? Jorge Luís Borges diz numa conferência sobre Hawthorne que foi incluída no livro Outras Inquisições que “Hawthorne nunca deixou de sentir que a tarefa do escritor era frívola ou, o que é pior, culpada”. Sem que assumisse explicitamente, Hawthorne retorna a Salem para trabalhar, diz ele na introdução deixando clara a proximidade entre narrador e escritor: “Senti como que a força do destino a impor-me que fizesse de Salem o meu lar”. Havia de ser em Salem, ali havia contas a pagar. Depois de ter estado fora de sua terra por longo tempo, voltou a ela para um trabalho convencional, no qual pudesse viver a ética reclamada de si pela família, pela sua formação puritana.
Para acabar de vez com qualquer dúvida sobre a proximidade entre narrador e escritor, Hawthorne foi trabalhar justamente no posto de superintendência da alfândega localizado em Salem. Foi no prédio daquela instituição que, num dia de chuva ao remexer em entulhos amontoados, ele encontrou a documentação antiga que o inspirou a escrever 'A Letra Escarlate'.
Três anos depois de ter iniciado seu trabalho em Salem, com a mudança no governo dos EUA em 1849, veio a demissão por motivações políticas. Foi com a demissão que o espírito do escritor, do homem de letras, tomou conta de si novamente. Havia sido recolocado nos trilhos de sua vida, ainda que para desgosto da memória puritana de seus antepassados e de sua ética. Vai dizer ele: “Estava-me alarmando desnecessariamente, porque a Providência havia planejado, em meu favor, perspectivas bem mais sorridentes do que as que eu poderia ter ideado”. Ler página 46. Para uma grave contingência nada melhor do que o consolo advindo da racionalização que atribui à Providência as decisões e o destino. O puritanismo de Hawthorne não lhe permitiu escapar a uma explicação providencial para sua demissão. Também não lhe permitiu escapar a necessidade de conferir veracidade à sua história, através do relato que fez sobre ter encontrado a letra escarlate e a descrição do caso de Hester Prynne.
Essa dúvida que reside até hoje sobre 'A Letra Escarlate' tinha como propósito para Hawthorne, na época, a necessidade de compor sua obra de maneira a respeitar as limitações interpretativas de seus leitores puritanos que como seus pares deveriam julgá-lo não esteticamente mas religiosamente, dogmaticamente. Para os puritanos, a ficção era ‘desonesta e distraía’. Esse leitor tinha uma característica singular, sua prática de leitura se fazia com o objetivo de absorver as Sagradas Escrituras, tendo como dever não “deixar um dia sem ler algum trecho da Palavra de Deus”, sendo esse um dever familiar a ser embutido nos hábitos pessoais desde o letramento, como vemos nas palavras do Reverendo John Cotton: “Ensine-os a ler” mas “ensine-os a ler as Escrituras”. Como relata o famoso livro de Edmund Sears Morgan sobre A Família Puritana. Sendo assim, a ficção se constituía uma barreira para o entendimento dos leitores puritanos. Para vencer tal obstáculo, Hawthorne desenvolve sua narrativa a partir de um dado descrito como verídico.
Aqui encontramos uma proximidade importante entre o narrador (que é o próprio Hawthorne) e a personagem de Hester Prynne, sobre a qual voltaremos a nos debruçar. Assim como Hawthorne, a personagem considerava-se um membro daquela congregação, ainda que não compartilhasse de suas opiniões e muitos de seus costumes. Mesmo diante de um quadro extremamente desfavorável, permaneceu expiando pelo seu pecado, cumprindo as penas de seu crime entre aspas.
Podemos considerar que Hester Prynne cometeu faltas que atingiam as três instituições fundamentais da comunidade puritana do século XVII: a Família, a Igreja e o Estado.
Primeiramente, as faltas de Prynne ofenderam a instituição familiar puritana em razão de que, ao permitir que sua ofensa maculasse o papel da mulher puritana, permitiu que ofendesse também o papel dessa mulher como parte essencial à existência da família. O exemplo na criação dos filhos, que cabia quase que exclusivamente às mulheres, estaria agora manchado pela conduta adúltera da costureira, que estaria educando uma filha puritana dentro de uma família puritana, mas sem o rigor necessário à existência de uma dessas famílias. Eis o motivo para que Hester e Pearl fossem condenadas a viver em uma cabana isolada do perímetro urbano de Boston. Ao mencionarmos que Hester e Pearl foram condenadas, o fazemos sem o medo de incorrermos em qualquer falha, pois é perceptível na conduta da população da colônia que Pearl é considerada a personificação do pecado. No trecho que eu li antes do filme, percebemos a proximidade entre a menina e a letra sobre o peito da mãe. No momento em que as duas são expostas à humilhação pública, Hester apertava sua jovem filha contra o peito.
Esse ato contrário à família ofende também a Igreja em razão da natureza pecaminosa de sua conduta. Ao manter as relações adúlteras com o reverendo Dimmesdale, Hester feriu o princípio sagrado do matrimônio. O processamento desse pecado, no entanto, pode ser encarado como uma das críticas de Hawthorne ao regime puritano. O casamento entre Hester e o sábio inglês, posteriormente auto-intitulado Roger Chillingworth, em nenhum momento teve seus laços baseados em um sentimento recíproco, tanto que Hester confessa nunca ter amado Roger e ele, muito mais velho que ela, não ocupa suas funções de marido naquele relacionamento.
Por fim, Hester infringiu estatutos legais daquela colônia. O adultério era contra a lei puritana, e esse conjunto de punições impostas era validado pelos magistrados. Evidentemente, esses magistrados estavam atrelados a valores religiosos, não nos escapando o fato de que num regime teocrático, a lei e a religião tornam-se uma coisa só. Hawthorne chama a atenção inúmeras vezes para o fato de que os magistrados vestiam-se quase que marcialmente, em um tom negro e uniforme; vestiam-se como se eles fossem o próprio livro das leis da Colônia de Massachussets.
Mas, mesmo sabendo-se parte de uma congregação patriarcal, cuja rigidez dos costumes ultrapassava os limites da individualidade a ponto de tornar público tudo que de particular pudesse haver, Hester ainda guardava dentro de si o orgulho de que somente sua fibra moral era capaz de mantê-la presa àquele local, ainda que não fosse, por “nenhuma cláusula da sentença, obrigada a permanecer nos limites da fundação puritana”.
Esse orgulho não se resumia apenas na sua vida forçosamente independente, ultrapassava os limites do ostracismo social ao qual fora depositada pela população de Boston. Isto porque Hester sabia-se um símbolo maior que aquele representado pela letra A ostentada em seu peito; diferentemente das outras mulheres puritanas, a personagem não se deixava apagar à sombra de uma figura masculina, tanto no provimento material e espiritual do seu lar, quanto na educação de sua filha. O maior exemplo que Hester pode ter deixado para sua filha e arrisco dizer para todas as mulheres depois de 1850 é o abandono da subserviência, do papel de adoradora e devota do marido. Entendo que esse aprendizado está conectado com o ser mulher, com a individualidade feminina e a capacidade de se estabelecer como ‘cabeça’ da família, não independentemente de um marido, como no caso extremo da protagonista, mas como parte significante na família.
A personagem de Hester Prynne é considerada pela crítica literária feminina a primeira grande heroína da literatura norte-americana. Não somente por ter lançado a semente da identidade feminina no seio de uma comunidade eminentemente paternalista, mas também por ter elevado a imagem da mulher como a responsável pelo provimento familiar.
Ricardo Pereira
Campinas, 7 de abril de 2012.


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