ENCONTROS INESPERADOS (Por Tony Bellotto)
No avião que me conduzirá de São Paulo ao Rio, eu já sentado, vejo embarcar meu urologista. Urologista, para um homem com mais de 50 anos, adquire a aura mítica de um Batman, por exemplo, para um homem com menos de 10. Em rodas de cinquentões, urologistas desbancam futebol e mulheres no quesito assunto mais comentado. No entanto, encontrar o urologista fora de seu habitat natural, o consultório, é como se deparar com um garçom conhecido longe do restaurante: temos a impressão de que conhecemos aquela pessoa, mas no contexto em que a encontramos naquele momento estranhamos sua presença.
Minha primeira reação é de sorrir educadamente e cumprimentar meu urologista. Noto, porém, que ele, depois de me olhar de relance, segue caminho para o fundo do avião como se não tivesse me reconhecido.
Será possível que ele não me reconheceu?, pergunto-me, um pouco frustrado. Depois de tantos anos de uma intimidade tão arrebatadora, ainda que fugaz, naqueles breves momentos, uma vez por ano, em que, com as calças arriadas e deitado de lado, deixo tranquilamente que ele me perscrute em recôndito tão íntimo? Será que sou só mais um para ele? Ele não me reconhece? Talvez, penso, para um urologista a parte mais marcante de um homem não seja o rosto… teria reconhecido meu recôndito (ué, mudou de nome?) se o perscrutasse numa prova cega ali mesmo, em pleno corredor do Air Bus? Reconheceria, com a argúcia de um sommelier treinado, os blends e até a safra de meu esconso (é preciso ser criativo com o uso dos substantivos)? Ou será que ele, educadamente, fingiu não me reconhecer para não me deixar constrangido? Afinal, há muitos homens que relutam em admitir que sentem carinho por – e às vezes até saudades de – seus urologistas.
Durante o voo rememoro algumas de minhas visitas anuais ao urologista. Já foram 11 vezes até agora (desde os 40), mas é sempre um enorme alívio quando, depois dos breves e desagradáveis procedimentos do exame, ele diz; “tudo certo com a tua próstata!”.
Sim, talvez eu seja só mais uma próstata para ele, mas meu urologista é único para mim.
Por Tony Bellotto
Minha primeira reação é de sorrir educadamente e cumprimentar meu urologista. Noto, porém, que ele, depois de me olhar de relance, segue caminho para o fundo do avião como se não tivesse me reconhecido.
Será possível que ele não me reconheceu?, pergunto-me, um pouco frustrado. Depois de tantos anos de uma intimidade tão arrebatadora, ainda que fugaz, naqueles breves momentos, uma vez por ano, em que, com as calças arriadas e deitado de lado, deixo tranquilamente que ele me perscrute em recôndito tão íntimo? Será que sou só mais um para ele? Ele não me reconhece? Talvez, penso, para um urologista a parte mais marcante de um homem não seja o rosto… teria reconhecido meu recôndito (ué, mudou de nome?) se o perscrutasse numa prova cega ali mesmo, em pleno corredor do Air Bus? Reconheceria, com a argúcia de um sommelier treinado, os blends e até a safra de meu esconso (é preciso ser criativo com o uso dos substantivos)? Ou será que ele, educadamente, fingiu não me reconhecer para não me deixar constrangido? Afinal, há muitos homens que relutam em admitir que sentem carinho por – e às vezes até saudades de – seus urologistas.
Durante o voo rememoro algumas de minhas visitas anuais ao urologista. Já foram 11 vezes até agora (desde os 40), mas é sempre um enorme alívio quando, depois dos breves e desagradáveis procedimentos do exame, ele diz; “tudo certo com a tua próstata!”.
Sim, talvez eu seja só mais uma próstata para ele, mas meu urologista é único para mim.
Por Tony Bellotto

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